Originalmente
o artista é uma pessoa que (...) deu livre curso a seus
desejos eróticos e ambiciosos. No entanto, é capaz
de encontrar o caminho de volta desse mundo da fantasia à realidade,
graças a um talento especial(...) Realmente se torna o
criador, o favorito que quis ser. Todavia, só pode consegui-lo
porque outras pessoas, como ele, se sentem insatisfeitas com
a renúncia real a que estão obrigadas. [Freud -
1911]
Todos
os poemas expostos aqui são traços meus [em palavras formais,
de minha autoria] e estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais
LEI
Nº 9.610, de 19 de Fevereiro de 1998. Podem
ser usados parcial ou em sua íntegra desde que citada a fonte
e o autor.

se eu fizesse amor, seria como o vento mata adentro
tocaria, assim, bem lento, as pétalas adocicadas
sopraria toda e cada palavra do meu segredo
derrubaria todo medo, depois tocaria teu rosto
provaria do teu gosto quando entrasse por tua boca
despiria tua roupa com a pressa dos famintos
noutro sopro, isso que sinto, seria igualmente teu
dispensaria o deus morfeus, seria de todo desperto
estaria de ti,tão perto, que pareceríamos um
se eu fizesse amor, nenhum segundo dispensaria
seria como a euforia que toma os desesperados
explodiria inconformado com o limite do humano
conheceria outros planos, não caberia mais em mim
seria o início e o fim de cada palavra tua
te riscaria, toda nua, com meus lábios apressados
escreveria, encantado, uma história absurda
em tua pele, tuas curvas, em teus seios, teus olhares
beberia os doces ares que escapassem dos gemidos
seria o pior dos bandidos roubando sorrisos teus
deixaria baco, zeus e todas as divindades
saberem que a eternidade cabe fácil em duas bocas
traria a alma tão louca, tão longe de qualquer razão
mas quanta e tanta covardia, que por pura maldição
toda vontade é em vão: poeta só faz poesia
Ricardo
Borges
não
adianta eu lhe pedir, adiantaria?
pra você deixar de lado essa beleza
pra dar tempo de eu erguer minhas defesas
e fechar os olhos pra essa primazia
não
adianta eu implorar na poesia
que seus olhos sejam menos bombardeio
quando, quieta, ainda assim é artilharia
sobre um torto e medíocre poeta feio
não adianta eu disfarçar
a alegria
toda vez que minha alma toca a sua
e não consigo esconder a euforia
não adianta eu perguntar aos céus, à lua
onde é que se escondeu a melodia
que me sopra sua pele calma e nua
Ricardo
Borges
se meu nome dormir em seu segredo
e não pode ser dito em madrugadas
pra que não seja extinta ou apagada
minha vontade se acalma - não de medo
busco não mais seus sons, há outro enredo
para ler-me em teus olhos e sorriso
se me nega as palavras e não fala
eu invado o silêncio, e sem aviso
roubo cada uma imagem que em ti cala
Ricardo
Borges
há lua
pra o meu eclipse antes que o sol se ponha
antes que o som se oponha ao silêncio e sentimento
há orvalho e alimento antes que o sol renasça
antes que o som da praça faça troça à minha
dor
um sorriso, um abraço, um beijo
um brinde ao meu desejo intenso e fátuo de me expor
Ricardo
Borges
quanto
tempo eu inda tenho pra fazer você em
rima?
o tempo de abraço e beijo?
de um relâmpago, um lampejo?
do rascunho à obra-prima
dá me o tempo de uma carta ou de bilhete pequenino?
te resumo ou me estendo?
um contrato ou só um adendo?
acorde ou nota ao violino?
quanto tempo ainda me resta pra fazer você de rima?
e antes que venha o fim
desnude tu'alma em mim
que a manhã se aproxima
Ricardo
Borges
o
amor comeu minha fé numa madrugada quente
dançou até amanhecer rindo um riso indecente
e arrotou felicidade na cara do sol nascente
o amor comeu minha crença e a minha religião
pra isso não escolheu hora - e ria libertação
arrotava leveza, beleza e doce rebelião
então comeu minha alma e o deus que nela
vivia
de novo dançou rodando até amanhecer o dia
já não vale o que há escrito
hoje meu único rito é destruir tiranias
Ricardo Borges
eu dancei entre as bombas e as flores
em rodopio incandescente de alegria
joguei fora a razão dos superiores
fiz barulho onde foi, antes, calmaria
plantei água
pra beber em dias secos
e colhi, nos dias secos, aguardente
abri caminho onde antes era beco
sem saída, como fosse coisa urgente
escrevi em folhas brancas e sedentas
de histórias que jamais farão sentido
pois não é sentido o que a vida intenta
gritei versos que jamais foram ouvidos
rimas do que só a alma experimenta
e a razão duvida ter acontecido
Ricardo Borges