Quando
pensei em descrever meu perfil, duas coisas me
vieram à cabeça.
Em primeiro lugar, o quanto é desconfortável falar
da gente mesmo.
Em segundo lugar, se eu for falar de mim, eu sou o que eu faço?
Ou eu sou meu gosto pessoal? Sou minhas preferências ou minhas
manias? Sou minha idade ou o lugar de onde eu vim?
Bem. Sou meu nome, pelo menos como forma de ser alcançado
verbalmente pelos corredores, ao telefone, etc.
Ricardo Borges
31 anos
Agora é mais importante eu dizer que sou Estudante de Psicologia
ou que adoro assistir os incansáveis repetidos episódios
do Chaves?
Adoro música. Ou seria melhor dizer que gosto de poesia,
pôr do sol, cheiro de roupa lavada, leite condensado, silêncio,
palestras, frio, calor?
Nasci em Goiânia, mas prefiro o som da palavra Anhanguera.
Gosto de abraço, aperto forte de mão, assistir pipas
voando, tomar goles de coca-cola até os olhos lacrimejarem.
Me agradam vocalistas que têm a voz rouca, mas ninguém
supera a falta de rouquidão de Roger Waters.
Acho bom quando descubro que não inventaram palavra pra
tudo que queremos dizer.
Acho bom quando uso a palavra exata.
Já trabalhei em mercearia, telefonia. Já organizei
eventos. Já consertei eletrônicos estragados. Já dei
aulas de inglês. Já cassei passarinho e comi jatobá no
pé. Já plantei flores, já colhi flores.
Adoro o açúcar que fica no “finzinho” do
copo de Toddy, pão frito com margarina, cheiro de livro
novo, os estalinhos que o tudo da TV faz quando encosto os pelos
do braço depois de acabar de desligá-la.
Prefiro uma linha escrita em um papel que dezenas de e-mails com
mensagens. Gosto de chocolate, mas não gosto de Sonho de
Valsa. Gosto de chuva com trovoada.
Mas nada disso diz exato quem eu sou.
Que tentativa mais vã....